Imprensa britânica fala dos super-ricos do Brasil



November 29th, 2008

O jornal britânico The Guardian, um dos mais importantes e influentes daquele país, publicou em 29 de novembro de 2008 uma reportagem intitulada “Super rich buck global trend and spend, spend, spend”, cuja tradução é “Super Ricos do Brasil ignoram tendência global e continuam gastando, gastando, gastando“.

Abaixo, tradução da reportagem:

A cancela de segurança move-se lentamente, abrindo passagem para mais uma luxuosa caminhonete de tração nas quatro rodas, com seus ocupantes encobertos por vidros fumê à prova de bala (nota desse blog: a reportagem refere-se ao Jardim Pernambuco, condomínio de luxo no Rio de Janeiro em que as ruas, embora públicas, foram bloqueadas por cancelas; ver, a propósito, reportagem sobre o Jardim Pernambuco).

Próximo dali, sob a sombra de uma jaqueira, um grupo de operários empoeirados dá a parada matinal de seu trabalho: construir mais uma luxuosa fortaleza cercada por palmeiras em Jardim Pernambuco, um casulo de 140 mansões de milionários situado numa colina no sul do Rio de Janeiro, o coração da alta sociedade brasileira.

Enquanto a crise de crédito causa estragos em todo lugar, os super-ricos do Brasil até agora estão relativamente incólumes. As brilhantes páginas de revistas para ricos estão cheias de anúncios de página inteira de spas de luxo, bolsas de designers e braceletes de diamante que custam mais do que muitos brasileiros ganham em toda a sua vida. Corretores de imóveis de luxo afirmam que eles estão ocupados como sempre, enquanto uma nova leva de hotéis super-luxo estão sendo lotados todos os finais de semana.

Um estudo recente conduzido pela MFC Consultoria e Conhecimento, um grupo brasileiro especializado em pesquisas sobre o mercado de luxo, mostrou que o mercado de Luxo no Brasil, conhecido no país como Mercado AAA, cresceu 17% em 2007 e espera-se que tenha taxas parecidas em 2008.

Brasil é um dos líderes mundiais no ranking de novos milionários. Nos últimos dois anos o número de milionários pulou de 130.000 para 220.000 e, até agora, a crise econômica não fez que eles parassem de consumir. “Os líderes de mercado no Brasil são Louis Vuitton, Dior, Versace, Armani, Valentino, Gucci e Prada”, afirmou um dos diretores da MFC.

Desde a cidade amazônica de Manaus até as metrópoles do sul como São Paulo e Rio de Janeiro, um número crescente de condomínios e lojas de luxo estão abrindo seus portões de segurança, quadras de tênis e piscinas para os ricos do país.

O presidente brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva, assumiu a Presidência em 2003 prometendo tirar milhões de seus compatriotas da pobreza. Mas seu tempo no poder tem coincidido com um crescimento sem precedentes no número de ricos. Atualmente, Lula goza de um índice histórico de aprovação de 57% entre os cidadão mais ricos do país.

“Do ponto de vista econômico, Lula não é um esquerdista nem um revolucionário; Lula é um conservador”, disse Lúcia Hippolito, uma conhecida comentarista política. “Ele se sente em casa quando está rodeado de empresários”.

Entretanto, há sinais crescentes de que a crise financeira começa a mostrar sua cara no Brasil. Os preços das commodities caíram apesar do avanço do Real, e em consequência espera-se que uma série de importantes projetos de infra-estrutura sofram atrasos. As classes média e baixa começam a sentir o tranco à medida que o crédito diminui. A MFC estima que o mercado de luxo comece a se retrair em 2009.

Por enquanto, contudo, a crise parece ser uma possibilidade distante em lugares como Jardim Pernambuco, onde o silêncio da tarde é quebrado apenas pelo canto dos pássaros e pelas batidas das bolas de tênis.

“Os banqueiros estão mais felizes do que nunca”, diz Hippolito; “no Brasil há uma piada que diz que Lula é pai dos pobres e mãe dos ricos”.

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